O canto lúdico ampliando nossa expressão

O canto lúdico ampliando nossa expressão

É curioso observar que várias vezes nos vemos perguntando para uma pessoa algo como: “você gosta de esportes? ”. Mas nunca vemos alguém perguntar se alguém gosta de música, quando isso ocorre vamos sempre para algo mais objetivo, do tipo: “qual estilo musical te agrada?”. Partimos do pressuposto de que a música é parte inerente a vida das pessoas, que todos gostam e têm alguma canção que agrada ou faz feliz.

Essa percepção é muito mais do que estética, é quase antropológica. Não gostamos de música apenas pelas suas composições, pelos seus arranjos de notas, gostamos pelo simples fato de gostarmos. A musicalidade é intrínseca ao ser humano e apreciá-la é parte da nossa expressão. Basta vermos como a música faz parte até mesmo da nossa formação. Os ritos tribais, por exemplo, sempre têm a música como um importante elemento, seja como forma de expiação do que é ruim, seja como forma de celebração. As cantigas da infância aproximam as crianças, fazem com que elas atuem em grupo.

O som nada mais é que o deslocamento do ar em um espaço de tempo e tem três naturezas: o ruído, o som periódico e o silêncio. O ruído é o som caótico, sem uma ordem, como se fossem diversos sons misturados em um único, alguns mais longos e outros mais curtos, uns mais graves e outros mais agudos. O som periódico é a nota de uma flauta, organizado e com ciclos precisos, no mesmo tom continuamente. E o silêncio é simplesmente a ausência de som. Como exemplo, ouça a música Radio Music de John Cage, na qual ele tenta nos colocar diante dos três conceitos enquanto vasculha algumas rádios.

No dia-a-dia estamos cercados de poucos sons periódicos e completamente mergulhado em ruídos, seja o som de um motor, seja pelo som da nossa fala. Isso mesmo. Os sons da fala são descontínuos, aperiódicos e, muitas vezes, soam como ruídos. Faça um teste: pronuncie a consoante [s], tudo o que se tem é um ruído branco, tal qual a estática do rádio. Quando se pronuncia a vogal [a] ela é um ruído, quando se pronuncia a mesma vogal e a sustenta em um “aaaaa” temos um som musical, pois ele é contínuo, periódico, tem um timbre e uma tonalidade específicos, como a nota de uma flauta.

Não demorou para que se percebesse isso e se começasse a combinar estes sons vocais, formando as primeiras noções de canto. Não demorou também para se notar como estes sons poderiam ser reproduzidos, utilizando tubos, cordas, peles e se criassem os primeiros instrumentos musicais, o que permitiria um acompanhamento da voz que canta. Destes passos surgiu a canção, a combinação dos sons da fala com os sons musicais.

Mas havia mais uma dificuldade, a fala não possui um padrão fixo de sonoridade, como são as notas musicais, ela é intercalada pelas necessidades do falante, pelo sentido das palavras. Por este motivo não lembramos da entoação de uma frase dita por alguém e, sim, do conteúdo, embora a curva entoacional nos ajude a compor esse significado. Já a música precisa ter alguma ordem, a fim de que se possa reproduzi-la, por isso podemos cantarolar ou batucar alguma coisa mesmo sem saber a letra, apenas pela melodia e não faltam vezes que isso se torna uma brincadeira.

Desta forma, o cancionista, aquele que compõe, precisa utilizar aquela matéria plástica e efêmera da língua, composta de fonemas, palavras e frases que podem se combinar de milhões de formas e encaixá-la na ordem perene da música, fazendo surgir a canção, que expressa duplamente suas ideias: na melodia e na letra.

É preciso combiná-las, fazê-las soarem como conjunto, como em Águas de Março de Tom Jobim que nos lembra, de fato, o cair da chuva, ou, então, pela falta de concordância entre elas, como em Felicidade de Luiz Tatit. Ou ainda em composições como Claire’s ninth, de Nick Hornby e Ben Folds, na qual os compositores tentam integrar a narrativa de um escritor à leitura musical de um músico e, assim, contar musicalmente a história do aniversário de uma garotinha de nove anos.

Na outra ponta está o cantor, aquele que interpreta, ele precisa ser sensível ao sentimento que move o cancionista a compor e somar a ela sua interpretação, precisa se expressar com as palavras e melodia do Outro. O cantor tem a missão de colocar uma voz dentro da voz, como diz José Miguel Wisnik. Por isso, muitas vezes, o oposto é capaz de surpreender, como a explosiva Elis Regina interpretando “Atrás da Porta” do tímido Chico Buarque. A versão de Elis é capaz de dar uma nova percepção à letra de Chico.

Assim, a canção tem diversas vozes em sua forma final, a voz da música, a voz da fala de quem a compôs, a voz de quem canta, a voz das versões que ouvimos, a voz das canções que gostamos…. Todas essas vozes combinam para que possamos compreender, dar sentido às novas músicas que ouviremos ou ressignificar aquelas que ouvimos em outros momentos. Todos estes elementos em marcha nos colocam em uma relação de afeto com a música, com a sua diversidade e a sua complexidade.

Não é apenas isso, para alguns estudiosos esta relação com a música surge de algo ainda mais profundo. Para eles, o ser humano possui uma necessidade de organizar o mundo a seu redor e a música surge da necessidade de se colocar alguma ordem nos ruídos constantes do exterior. Sendo assim, a música é uma forma de relação com os ruídos, uma espécie de contrabalanceamento, que nos permite compreender melhor a função dos sons. Neste processo, a música nos ajuda eliminar o ruído, a organizar as sensações relacionadas à audição e estabelecer uma nova relação com a nossa expressão.

Os benefícios de se cantar de forma lúdica são cada vez mais explorados pela ciência e os mais variados estudos demonstram que as contribuições são diversas e vão desde a socialização até a indicação como psicoterapia para tratamento de quadros clínicos. O canto lúdico também é peça fundamental na melhoria da expressividade, pois quando cantamos estamos utilizando palavras que já estavam lá ou estamos em busca de palavras que nos ajudem a expressar o que sentimos, assim, a canção e o canto são importantes elementos para o autoconhecimento da nossa expressão e para uma melhoria na nossa performance comunicativa.

 Com certeza existe aquela música que te toca e faz você pensar em como ela é capaz de resumir um sentimento. Música é expressão e conhecer alguns de seus conceitos, irá te ajudar a se expressar ainda melhor. Por isso, venha conhecer a Oficina de Canto para não-cantores da Univoz e veja como uma canção pode ajudar na sua expressão.